(escrito há 1 ano, em 25/03/2024)
Meu pai morreu. Encerrei a ligação, dei a notícia a minha mãe e continuei a trabalhar, mas não me lembro de uma linha do que fiz. Avisei meu chefe e quem mais eu quis avisar, fechei a porta e apaguei por quase 3 horas. Acordei esquisita, meio seca, perdida. E perdida tive um tempo ali antes de buscar os meninos na escola. Meu pai morreu. Meu pai morreu e não posso discorrer sobre o quanto eu o achava admirável, dizer que nossa experiência juntos foi incrível. Não, essa não é a nossa história. E precisei chegar a idade adulta para entender que meu pai era um "homem do seu tempo" e entender o quanto desafiador deveria ser para ele ter uma filha como eu, que não via sentido algum nas atitudes típicas de um "homem do seu tempo". O que ele conhecia como relação era pra mim inaceitável, desrespeitoso; e o que eu propunha como relação era pra ele inaceitável, desrespeitoso. E assim passamos a vida, patinando no terreno do conflituoso ou indiferente. Sei que ele me amava e por vezes soube do meu amor por ele, mas a gente achava pouca brecha pra trazer esse amor para a prática. Com a chegada da demência, há alguns anos, comecei a demonstrar um ou outro afeto e ele também. Meu pai morreu. Meu pai morreu e tenho pra mim que fizemos nosso melhor, ainda que tenha sido pouco, ainda que pareça pouco. Meu pai morreu e eu que sou de gritar por ajuda e sofrer junto quero ouvir nada, dizer nada. Quero ficar quieta para tentar dar nome para o que sinto sem ser rasa, afoita, e chamar de "uma tristeza enorme" porque é outra coisa que não isso. Meu pai morreu e me escapa a palavra. E, de alguma forma, eu me escapo também. E sinto muitíssimo.
Será tarde demais para os pêsames? Bem, considere oferecidos.
ResponderExcluirReconheço essa dor, embora meu pai já estivesse morto desde quando casou-se com minha mãe, quando decidiu ser enterrado chorei litros, a mágoa de vê-lo vencido doeu profundamente.
Tarde de jeito maneira, Davi. Obrigada :)
ExcluirTambém sinto muito pelo que te doeu da morte em vida e da morte em morte. Me parece que a finitude, essa do corpo, descasca uma camada outra na gente. Traz um contorno inicial até então desconhecido, não necessariamente ruim, só outro. E aí cada um é que sabe o movimento do seu.