Enfim, "Sorry, baby"
Sinto um prazer imenso em ir ao cinema durante o dia, especialmente se sozinha, ainda que seja no modo esbaforida quase no susto. Eram 10 da manhã e cheguei literalmente correndo, com os cabelos ainda encharcados do banho, para assistir a esse filme sobre o qual sabia nada a respeito. Aliás, esse é um esporte que tenho praticado olimpicamente já faz um tempo: ir ao cinema/teatro despida de informações sobre e aberta para o que vai ser. E "Sorry, baby" me tirou de mim no minuto um. Um filme que mais parece livro, dividido em capítulos, com cenas e diálogos e ritmo e enredo abissais de tão bons. Eu bem poderia cobrir páginas com esse azul de caneta lançando mão da minha nula expertise em crítica cinematográfica para pontuar cada detalhe que me tocou, mas vou poupar todos nós desse provável desserviço e vou direto ao ponto. Eu disse que a história me tirou de mim, certo? Pois sim. Mas teve um momento, que não vou saber precisar exatamente qual, em que voltei pra consciência do corpo de um jeito que foi impactante e suave ao mesmo tempo. Me fez chorar um choro macio. Choro que abre tanto por dentro que precisa ganhar vida espalhada pra fora. Mergulhada no encantamento por Agnes, percebi que meu fascínio maior era pela sua autenticidade. Não a li pelo raso, como melancólica esquisita quebrada emocionalmente e imersa no branco gelado da apatia social. Eu a li como genuína. Entregue a ser o que se consegue ser, no sentido que faz sentido, dentro das circunstâncias que foram compondo seus cenários. Ela não é padrão e não parece preocupada em tentar ser. Na verdade, ela não é algo. Ela vai estando, de acordo com os ares e horrores da sua própria história (e qual história não é feita de ares e horrores?). E eu, que às vezes ainda me pego cutucada por um histórico sentido de inadequação, me senti validada pelo arco da Agnes. E que sublime é achar pertencimento, validação, assim, através da arte. Se achar na arte. Fui trocando de casca junto com Agnes naquela 1 hora e 44 minutos e sinto que deixei minha pele antiga descamada em choro e riso na poltrona do Cine Brasília. Saí de lá sensível, plena nos meus vazios, feliz com o meu todo, aberta. Saí de lá entendendo que o peculiar no outro e em mim simsim me fascina e não preciso evitar nem um nem outro. Posso abraçar a beleza diversa das autenticidades e que se assuste quem for de susto. Saí de lá com o sol estalado do meio dia me adivinhando tranquila, consciente. Mais desperta. Mais uma vez, a arte compondo minha pele.
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